sábado, 17 de junho de 2017

Da Recessão à Depressão: crônicas do brazil coxinha (I)

Prezados,
estamos sob um Estado de exceção. Foi golpe, sim. As circunstâncias posteriores comprovaram o movimento de mão. Mas o equilíbrio político ainda permite luta.
Nela, é importante não deixarmos de ver os fatos. O golpismo tem uma agenda definida e focada até o pontual (fim das leis trabalhistas e destruição da previdência pública), que está em curso, e cabe a nós impedirmos seu desenvolvimento. Até para esclarecer equívocos, que muitos palpiteiros criam e disseminam, é tarefa nossa também zelar pela consistência do debate. Isso quer dizer discutir qualquer coisa com qualquer um? De forma alguma. Para isso existe o humor, a ironia, a apresentação de contradições, e, em última análise, a carrocinha.
Esse é o caso da descrição da evolução de nosso produto, por exemplo. Nesses seis meses que tomei de resguardo deste blog, ouvi de tudo sobre nossas contas nacionais. Nem vou me dar o trabalho de arrolar. Vamos a duas definições simples em economia, a respeito do crescimento econômico:

- recessão: ocorre quando a renda nacional, ou produto bruto (ou o que se entenda como isso) diminui progressivamente seu ritmo de crescimento. Quando ela é leve, pode ser chamada de desaceleração. Quando atinge o crescimento zero, pode-se chamar estagnação.

- depressão: ocorre quando a renda nacional ou produto bruto diminuem em termos absolutos. Isso mesmo. Entram em retrocesso. Não é taxa de crescimento desacelerando. É o Michael Jackson dando aquele passinho que parece ir para a frente mas vai para trás, certo?

De acordo com os dados do IPEA, o que aconteceu em nossa economia entre 1997 e 2016, em dados trimestrais, tem as seguintes feições:


Notem o eixo associado ao valor ZERO.
Em primeiro lugar, é possível dividir a curva em dois momentos: um, que vai de 1997 a 2008; outro, que vai de 2009 a 2016, quarto trimestre. Se traçarmos a reta de tendência, o primeiro momento apresenta crescimento ao longo do tempo. Já o segundo apresenta um declive mais acentuado.
Em segundo lugar, é possível notar que o primeiro momento somente apresenta valores abaixo de zero entre 1998 e 2000, além de 2002 T2. Já o segundo, além de apresentar um "vale" em 2009, ultrapassa o eixo em 2014 T2 e de lá não voltou até hoje.
Todo economista sério conhece o governo desastroso que foi FHC II (1999 - 2002). Não vamos nos ater nos detalhes daquele momento terrível da história de nossa economia, em que o desemprego atingia níveis estratosféricos e o cinismo de nossas autoridades monetárias desejava um "feliz 2002" a todos, dando de ombros às consequências econômicas da farra cambial que sustentou a reeleição de FHC. Não nos atenhamos também à rápida resposta do Brasil à crise mundial de 2009.
O que nos interessa aqui é a queda livre na taxa de crescimento do PIB real observada a partir do primeiro Governo Dilma, em 2010. A situação fica particularmente crítica em 2012, caracterizando uma recessão. Mas a taxa de crescimento cai abaixo da média histórica do PIB brasileiro nos últimos quarenta anos (algo entre 2,5% e 3,0% acumulados ao ano) apenas em 2013, o que ainda não caracteriza tecnicamente uma depressão, mas uma estagnação da economia. A observação em 2014 T2 já caracteriza uma economia entrando em depressão, o que reflete o efeito das "jornadas de junho" de 2013 e outras intentonas que ainda vão dar muita vergonha a pessoas politicamente conscientes em nosso país. A depressão da economia, então, apenas começa tecnicamente e em termos precisos no começo de 2015, com o país já em pleno carnaval coxinha.
Este post já está longo demais para que eu me estenda quanto à habilidade ou boa fé da política econômica dos golpistas para além da constatação de que estamos em depressão econômica aberta, na qual a última observação, um tanto otimista do IPEA quando a uma volta ao eixo zero em um futuro próximo, ainda estará sujeita a revisão metodológica pelo IBGE, em um futuro talvez mais próximo do que o anterior.

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