sexta-feira, 4 de agosto de 2017

Contra a História Econômica da Semana Passada


Contra a “História Econômica da Semana Passada”


Luiz Eduardo Simões de Souza

Historiadores costumam ter certa lerdeza em suas análises.
A isso, alguns podem chamar prudência para com o desenvolvimento dos fatos, fenômenos e processos a serem interpretados. Outros podem chamar de certa insegurança para com o observado, na definição de seus traços mais permanentes e característicos, o que só a passagem do tempo permite.
Há, até, os que veem nisso um caráter “escapista” ou “reacionário”, no qual o historiador evita formular um juízo do passado mais imediato, justamente por não querer se vincular às consequências imediatas que os agentes dessas circunstâncias queiram lhe impingir.
Dada a desonestidade intelectual dessa última visão, que ignora solertemente o ensinamento de Marc Bloch de ser toda história contemporânea, vamos dialogar com as duas primeiras.
Creio ter o historiador – ao menos o honesto – o direito de fazer sua interpretação com o devido vagar, o que lhe dá, por conseguinte, algum distanciamento temporal entre o presente em que vive e seu objeto de estudo.
Isso não quer dizer que o historiador não possa falar de coisas que lhe afetam diretamente em seu tempo, apenas que o descanso dos fatos permite a precisão da análise. A História não é ferro que se malha quente, a não ser pelo desejo de quem a forje.
A História Econômica é, assim, muitas vezes confundida com a análise econômica, até porque, na realidade, a segunda possui uma ligação intrínseca com a primeira. Não há muito espaço para boa análise econômica que prescinda da História, e vice-versa.
Mas existe, na análise de conjuntura, o momento no qual historiador e economista trilham caminhos distintos. A previsão do futuro a partir do passado mais imediato é um imperativo que cabe muito mais ao economista do que ao historiador, o que talvez se deva à desconfiança que a ciência histórica desenvolveu a respeito desse procedimento, graças à extensão de tempo de sua consolidação, maior do que a da ciência econômica. Assim, provavelmente pelo maior tempo de janela dos historiadores, estes busquem maior sobriedade onde os economistas joguem a toalha branca e os ossos de adivinhação, embriagando-se com a modelagem matemática e a estatística inferencial.
O historiador econômico fica, dessa forma, em um dilema entre imbuir-se do poder de oráculo conferido aos economistas pelo status preditivo de sua ciência, e dele abdicar em troca de uma análise mais profunda de seu objeto, conquanto maturada pelo que o tempo e a reflexão trazem a ela.
Ao final, a escolha entre um e outro caminho acaba cabendo ao historiador, o que também pode defini—lo como um encadeador de sucessivos curtos prazos – erro que induz muita gente a pensar que faz história econômica – ou como um historiador econômico de fato, observando as ondas longas, as estruturas que compõem os cenários por onde elas trafegam, e seu ritmo, que não é o das meras flutuações conjunturais.
Por isso, escrever a “história econômica da semana passada” constitui erro, infelizmente muito comum, e ainda mais infelizmente muito pouco reprimido quando ainda em condições de sê-lo, durante o período de formação do historiador econômico.
É importante ressaltarmos que não queremos impor agenda alguma de pesquisa a quem quer que seja. Economistas que pincelem suas análises conjunturais com efemérides ou curiosidades de almanaque, ou historiadores que acham ser o longo prazo uma sucessão linear e contínua de curtos prazos, que escrevam suas “pesquisas” ou “interpretações” tão rápido quanto a tinta seque no papel ou o corretor ortográfico autorize, podem continuar a seguir o que lhes parece ser sua disposição mais confortável. Existem mesmo lugares em que as pessoas podem também fazer isso, se acharem que são Napoleão, que as condições pré-revolucionárias a impelem à escrita compulsiva e irrefletida ou mesmo se acharem que possam voar. Só não saiam por aí se apresentando como “historiadoras econômicas”. O nome é outro.

quarta-feira, 28 de junho de 2017